A escalada da violência no México atingiu um novo patamar quando cartéis passaram a operar com armamento de guerra, veículos blindados artesanais, drones e até aeronaves para transporte e logística criminosa. Organizações como o Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG) deixaram de agir apenas como redes de tráfico e passaram a atuar com estrutura paramilitar, impondo bloqueios simultâneos, incendiando caminhões, sitiando cidades e enfrentando forças federais com fuzis de alto calibre. O resultado é terror urbano, paralisação de serviços e colapso temporário da rotina civil.
O ponto de ruptura ocorreu quando essas facções consolidaram domínio territorial armado, infiltraram instituições locais e passaram a desafiar diretamente o Estado. Em episódios recentes, comboios fortemente armados circularam à luz do dia, enquanto aeroportos, rodovias e prédios públicos foram alvo de ataques coordenados. A mensagem é clara: demonstração de força e controle.
No Brasil, facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho já apresentam características estruturais semelhantes, organização interestadual, presença internacional, domínio de rotas estratégicas e influência no sistema prisional. Embora ainda não operem com blindados improvisados em larga escala ou confrontos prolongados contra forças militares, há registros crescentes de apreensão de fuzis, munições de uso restrito e equipamentos de alto poder destrutivo.
Um cenário semelhante ao mexicano poderia emergir caso se combinem três fatores: fortalecimento financeiro contínuo das facções, fragilidade no controle de fronteiras e desorganização do sistema prisional. Disputas por sucessão de lideranças ou ofensivas mal planejadas do Estado podem desencadear ondas coordenadas de ataques urbanos, como ocorreu em São Paulo em 2006, mas em escala ampliada e com maior poder bélico.
A diferença central hoje é que o Estado brasileiro ainda mantém o monopólio da força em nível nacional. Porém, a experiência mexicana mostra que, quando organizações criminosas passam a agir com capacidade militar e controle territorial, a reversão se torna complexa e custosa. O alerta está posto: prevenção estratégica, inteligência integrada e controle rigoroso de armas e fronteiras são essenciais para impedir que o crime organizado avance de facção para força insurgente.



